Psicoterapia para Escravos VS psicoterapia para Seres Livres

João Gabriel Simões
3 min readNov 10, 2023

Inspirado na distinção feita por Platão, no diálogo “Leis”, entre medicina para escravos e medicina para homens livres, podemos refletir sobre uma psicoterapia para “escravos” e uma para seres livres, exercida por psicólogos, psiquiatras e terapeutas nos dias atuais.

O termo “escravo” deriva do latin “sclavus”, que significa “aquele que é propriedade de outro”. Nesse sentido, figurativamente falando, uma psicoterapia para escravos seria uma prática que visa restituir o paciente as funções que lhe cabem de acordo com seu “senhor”, o mais depressa possível. Esse “senhor”, no mundo contemporâneo, pode ser seu chefe, cônjuge, familiar, empresa, estado, sociedade etc.

O que importa aqui é a funcionalidade do sujeito a curto prazo, pouco importando as suas reais necessidades, valores e sonhos. Nessa abordagem, a prioridade é a supressão dos sintomas e a manutenção da performance do sujeito para o maior proveito de seu senhor. O sofrimento é destituído de valor e considerado apenas um obstáculo que deve ser suprimido com medicamentos, adestramento comportamental e falso otimismo. A dor é assim impedida de se expressar e suas causas negligenciadas. No fundo o foco não é o paciente, mas o sistema que se beneficia de sua força de trabalho e valor de compra.

Charles Chaplin — Tempos Modernos

É muito diferente da proposta de uma psicoterapia para seres livres, cujo foco é a emancipação, a individualização (no sentido Junguiano) e a busca de uma vida plena e significativa. Nessa abordagem, o sofrimento é significativo e integrado na narrativa de vida do paciente. Não se busca fugir da dor, mas compreendê-la e transformá-la em um catalizador evolutivo. O foco principal não é o benefício do sistema (até porque o sistema, as vezes, é uma das causas de seu sofrimento), mas o proveito do paciente com sua busca por uma vida mais autônoma, autêntica e satisfatória.

Por que escrevi este post?

Para chamar atenção para o fato de que as vezes, em certos contextos, a psicoterapia para seres livres — que é o ideal da psicologia moderna — pode degenerar em uma forma de psicoterapia que apequena o ser humano, reduzindo-o a um tipo de “escravo” moderno, consumidor assíduo de medicamentos e alheio ao que se passa dentro de si.

Essa crítica não é novidade, quando observamos a forma como algumas abordagens psicoterapêuticas são empregadas, especialmente em ambientes institucionais onde predomina uma lógica quantitativa e simplista. Desde os tempos de Carl Jung, passando por Thomas Szasz e chegando a Steven Hayes, encontramos ressonâncias dessa mesma crítica.

Para tornar essa exposição mais didática, veja abaixo o comparativo:

Psicologia Para “Escravos”

  • Foca apenas nos sintomas.
  • Anestesia o sofrimento.
  • Visa trazer o paciente para o trabalho o mais rápido possível.
  • Se preocupa mais com a funcionalidade social do paciente do que com suas necessidades e valores.
  • O paciente é visto como uma peça defeituosa que deve ser consertada e recolocada na máquina social.

Psicologia para “seres livres”

  • Foca nas causas, sintomas e sentido de vida.
  • Usa o sofrimento como um trampolim para a criação de uma vida significativa.
  • Incentiva o autoconhecimento e conduz a uma vida autêntica, alinhada com os valores e necessidades do paciente.
  • O paciente é visto como um “microuniverso” singular, repleto de potenciais em busca de realização.

Por: João Gabriel Simões (Psicólogo)

Instagram: @joao_gabriel_simoes

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